Amontoado de algo

Lutos públicos

Nos últimos dias, fiquei comovido com dois acontecimentos do programa Big Brother Brasil: o choro de Tadeu Schmidt pelo falecimento do irmão, o jogador de basquete Oscar Schmidt, ocorrido em 17 de abril; e o choro de Ana Paula pelo falecimento do pai em 19 de abril. Mas minha emoção se misturou com um estranhamento por estar assistindo a essas manifestações de luto, por achar que esses choros não deveriam estar sendo transmitidos. Esse meu sentimento misto não é direcionado às pessoas do Tadeu e da Ana Paula, e não decorre de um juízo sobre suas respectivas manifestações. Na verdade, foi provocado pelo próprio programa, que manteve sua programação rígida e imutável, fazendo com que os indivíduos tivessem que adaptar seus lutos e seus rituais de despedida à dinâmica do programa. A "liberdade de escolha" oferecida, de permitir que o Tadeu se ausentasse da apresentação e que a Ana deixasse o programa, não era exatamente uma escolha livre de consequências, pois jogava toda a carga de responsabilidade aos próprios sujeitos enlutados, que teriam de arcar, sozinhos, com os ônus profissionais e/ou financeiros de suas decisões. Nem sequer foi cogitada uma mudança na programação da competição, ainda que mínima, para absorver algum impacto desses acontecimentos extraordinários e permitir algum alívio para eles. No fim das contas, são duas pessoas inseridas em um sistema que faz com que elas sejam atravessadas e tenham de lidar com questões que, especialmente naqueles momentos, não deveriam.