Amontoado de algo
Essa é a minha segunda tentativa de criar esse blog depois de anos navegando de forma passiva em uma internet em que minha presença em determinados espaços digitais não é exatamente uma escolha, mas uma consequência da redução desses espaços, da concentração dos usuários em algumas poucas redes, da limitação das possibilidades virtuais.
Na primeira tentativa, há exatamente um ano, inaugurei o blog com um post justificando que ele poderia me ajudar a criar uma outra relação com a internet e as tecnologias. Naquele momento, o que me fez criar o blog foi a minha sensação de decepção com o fato de que a internet que nos foi prometida há algumas décadas - que permitiria toda uma sorte de facilidades e benefícios em todos os aspectos da vida, em termos de conhecimento, arte, cultura, entretenimento, comunicação, trabalho, relacionamentos -, em nada se parece com a internet que está sendo efetivamente entregue nos dias de hoje, em que há uma distorção completa daqueles princípios. E o blog surgiu justamente nesse contexto de tentar mudar a minha relação com a internet.
A minha percepção sobre a situação da internet passa longe de ser apenas uma questão individual, mas é também uma questão social e coletiva. E são muitos os acontecimentos que demonstram essa deterioração dos espaços coletivos digitais. Alguns dos exemplos mais recentes são: a consolidação dos feeds de rolagem infinita das redes sociais; a compra do twitter por Elon Musk e a amplificação do discurso nazi-fascista na plataforma; o apoio de bilionários de empresas de tecnologia do Vale do Silício a Donald Trump nas eleições presidenciais estadunidenses de 2024; as massivas violações praticadas por empresas desenvolvedoras de ferramentas de inteligência artificial contra produções e trabalhos de terceiros.
Apesar disso, o blog durou poucos meses, alguns textos, e não demorou pra ser abandonado. A minha maior dificuldade era a de encontrar a linha tênue entre o que poderia ser blogado e o que caberia melhor numa página de diário, num rascunho do word ou num pedaço de papel. Porque colocar algo na internet de hoje não é nada parecido com publicar algo no facebook em 2014, ou postar em um blog em 2011, ou twittar em 2009. Em algum ponto da história, a internet foi tomada de assalto e transformada em um espaço apressado, artificial e puramente comercial, e participar ativamente desses espaços coletivos digitais se tornou uma dificuldade. E esse receio fez com que eu não conseguisse criar o hábito de blogar e acabasse abandonando o blog ainda no ano passado.
Permanecer nesses espaços e manter uma presença digital ativa, então, não é fácil. Por outro lado, abandonar a rede também não me parece ser possível ou viável, apesar de ser tentador querer embarcar em movimentos que defendem a desconexão total, como, por exemplo, por meio da substituição de smartphones por dumbphones.
Pra que, então, se dar ao trabalho de criar um blog e publicar textos na internet em pleno ano de 2026? Porque independentemente da minha visão sobre os rumos da internet, escrever é uma necessidade fisiológica, e nem todos os textos cabem ou são feitos para cadernos, diários, rascunhos do word. Por isso, criar esse blog se tornou uma necessidade, porque é preciso dar um destino pras palavras e pras ideias que, se não fossem ser publicadas aqui, não existiriam. E permitir isso seria uma pena.